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70 anos do Maracanazo, a maior tragédia do futebol brasileiro até o 7x1

Em 16 de julho de 1950, um tal Alcides Ghiggia silenciava o país e dava aos uruguaios a segunda Copa do Mundo

Postado em 16/07/2020 às 14:34 |

Há exatos 70 anos, duzentos mil espectadores assistiam atônitos a Seleção Uruguaia surpreender o mundo. Com gols de Juan Schiaffino e Alcides Ghiggia, os charrúas silenciavam o Maracanã, recém construído, e conquistavam sua segunda Copa do Mundo. Duzentos mil foram testemunhas de uma tragédia que para três milhões de uruguaios segue sendo motivo de orgulho.

Um simples empate daria o título para o Brasil, já que a fase final do Mundial naquela época era decidida através de um Quadrangular. Uma tragédia colossal para a seleção canarinho, naquela que foi talvez a maior epopeia da história dos torneios entre seleções nacionais.


Pelé tinha nove anos em 16 de julho de 1950. Sob as lágrimas do pai em frente ao rádio, jurou à Dondinho que ganharia um mundial. Bastaram oito anos para que o menino de Três Corações (MG) cumprisse a promessa.

Celeste desbanca favoritismo brasileiro

O Brasil era amplo favorito, principalmente pelos custos de viagem de equipes europeias e por questões políticas, como a negativa de alguns países sul-americanos em participar do mundial anterior, em 1938, na França. No quadrangular, o Brasil - que jogava de branco na época e aboliu o uniforme após o revés - goleou a Suécia e a Espanha por 7 a 1 e 6 a 1, respectivamente. Os uruguaios haviam empatado com os espanhóis e vencido os suecos com dificuldade. O Brasil até abriu o placar com Friaça, mas La Celeste conseguiu a virada para que o capitão Obdulio Jacinto Varela, El Negro Jefe, erguesse o troféu para subir ao olimpo do futebol.

“Ao contrário do que se diz, não acredito que houve tanta surpresa. Tínhamos um nível parelho e não tínhamos medo deles. Pensávamos que podíamos ganhar apesar do triunfalismo que existia”, disse o goleiro Roque Gastón Máspoli, em uma entrevista para um jornalista argentino, em 1994.


Barbosa e o 7x1
Na tradicional caça às bruxas pós derrota, o principal apontado foi o goleiro Barbosa. Certa vez, chegou a dizer que “a pena máxima no Brasil é 30 anos, mas eu fui condenado à perpétua”. Motivado também pelo racismo estrutural ainda tão enraizado na sociedade brasileira, criando-se à época o estigma de que goleiros negros não eram confiáveis e que inacreditavelmente persiste até hoje na cabeça de alguns. Morreu em 2000, com a fama de azarado, de pé frio, atirado à lava de um vulcão de ódio e ingratidão do qual parecia ser impossível sair.

Se teve muito mais tolerância com os protagonistas do 7 a 1. Inclusive, muitos voltaram a ser chamados e vestiram a camisa amarela como se nada tivesse ocorrido, com algumas exceções, como David Luiz, o maior símbolo daquele vexame. Teria Barbosa finalmente sido libertado de ser o maior símbolo de uma derrota brasileira? É certo que evoluímos como sociedade, mas os jogadores de 1950 nunca tiveram sequer um pedido de desculpas ou qualquer outra coisa que pudesse confortar sua dor.


Ghiggia, o carrasco brasileiro

Como dizia sempre Alcides Ghiggia, o carrasco brasileiro, somente três pessoas silenciaram o Maracanã: ele, Frank Sinatra e o Papa. As crônicas da época garantem que até mesmo suicídios foram praticados em virtude do fracasso tupiniquim causado pelo ponteiro veloz e certeiro em frente ao arco rival que não titubeou ao estufar as redes brasileiras e decretar o triunfo uruguaio no Rio de Janeiro. Seu nome até hoje é associado ao do mítico estádio, que naquela época tinha nos cimentos da arquibancada a essência do futebol, diferente da arena padronizada que o Maracanã se tornou.


Teve mais glória do que dinheiro, nunca lhe faltou nada, mas tampouco lhe sobrou. Sua velocidade e picardia o caracterizaram dentro de campo. Passou sua vida contando para o mundo que lhe acercava para somente ter a recompensa de conversar com o homem que fez um dos gols mais memoráveis da história do futebol mundial.

Em um 16 de julho como o de hoje, mas em 2015, Ghiggia, acordava aos 88 anos para celebrar mais um ano de sua façanha. Mas nesse dia, escolheu voltar a comemorar com seus imortais companheiros. Um infarto o levou para o túnel da eternidade. Por ironia do destino, foi o último daquela equipe a falecer. O time voltou a estar completo mais uma vez.

Os protagonistas daquela tarde ficarão para sempre representados nas imagens preto e branco que formam um dos maiores cinzas da história do futebol brasileiro em meio a imensidão de cores de um mundial. Mas o céu? Segue sendo celeste.


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