Portal da Cidade Brusque

OPINIÃO

O Chile acordou!

Força das ruas não deixa dúvidas sobre a intenção dos chilenos em enterrar a constituição herdada pela ditadura pinochetista

Postado em 29/10/2020 às 13:03 |

(Foto: Reprodução)

A escolha da maioria dos chilenos no plesbicito constitucional do último domingo (25), não deixou dúvidas sobre a intenção de enterrar a constituição herdada pela ditadura pinochetista e os 40 anos de neoliberalismo entrelaçados com ela. Isso significou a privatização da educação, da saúde e das aposentadorias, a precarização extrema das condições de trabalho, além de uma repressão sistemática e um sistema eleitoral restritivo somente a partidos tradicionais, que negociaram a saída da ditadura.

A atual constituição deu um papel residual ao Estado na prestação de serviços básicos e motivou os protestos pela criação de uma nova já no ano passado, em um movimento conhecido como estallido social (estouro social, em português). O resultado apontou que 78% dos chilenos votaram pela substituição da carta atual. A Assembleia Constituinte será formada em um novo pleito em abril de 2021, com paridade de gênero (50% mulheres e 50% homens). Na votação de domingo, os chilenos também decidiram que a Constituinte não será mista, com metade dos assentos destinados a parlamentares em exercício, mas sim inteiramente formada por novos membros eleitos, sem necessidade de filiação partidária.


Definitivamente, foi uma vitória do povo do chileno contra o presidente Sebastián Piñera por educação e saúde gratuitos e de qualidade, além de salários dignos. Triunfo também contra as bases neoliberais desta constituição que tanto castiga os que mais necessitam.

A constituição que será substituída foi reformada sob a estrita supervisão do regime militar, no auge da ditadura, quando os partidos políticos haviam sido declarados ilegais e o país se encontrava sob estado de emergência. Vale lembrar que através de outro plesbicito, em 1988, o sanguinário Pinochet não pôde continuar por mais oito anos no comando do Chile.

“Não são 30 pesos, são 30 anos”, proclamavam os manifestantes, que traziam como principal bandeira a educação gratuita. As manifestações seguiram e a pandemia evidenciou ainda mais as urgências sócio-econômicas, com níveis de pobreza e carências sociais ainda mais graves das que se tinham registros anteriormente. A crise por baixo da pandemia é a crise do regime neoliberal sustentado desde a ditadura e que foi agravando as desigualdades até pontos insustentáveis, mesmo em um dos países com o PIB mais alto da região, mas em contrapartida, com uma das maiores concentrações econômicas em poucas mãos.

No domingo, a luta das ruas se transformou, enfim, em uma luta política. Ainda falta bastante e é necessário que os espaços políticos populares trabalhem pela unidade. Se espera que o contundente resultado do plesbicito sirva para o governo entender a necessidade de um processo convencional sem a necessidade de violência institucional nas ruas, o que ocorreu, em uma grave violação aos direitos humanos, com milhares de feridos e dezenas de mortos.

O dia 25 de outubro foi um dia histórico para o Chile e também para o continente. Aos poucos, se começa a enterrar um neoliberalismo selvagem e sedento por direitos populares, que a direita sul-americana sempre usou como exemplo e que já foi superado na Argentina com a derrota de Mauricio Macri e com o retorno da democracia na Bolívia, com a vitória de Luis Arce. O som das ruas é claro: "Chile despertó" (o Chile acordou). E o Brasil, quando irá acordar?

A inscrição no Estadio Nacional do país resume tudo o que vem acontecendo. “Un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro” (Um povo sem memória é um povo sem futuro.)

A América do Sul resiste. O imperalismo compadece. 



por Celio Bruns Jr

Fonte:

Receba as notícias de Brusque no seu WhatsApp.
Clique aqui, é gratis!

Deixe seu comentário