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Esgotamento

O que é a "fadiga pandêmica" e como superá-la?

Mal tem efeitos psicológicos e físicos e vem se tornando uma questão de saúde pública com o advento da pandemia da covid-19

Publicado em 13/12/2020 às 23:35

(Foto: ilustração)

A pandemia está cobrando um altíssimo preço de toda a população mundial. Tirando as perdas mais óbvias, ou seja, as centenas de milhares de vidas, os prejuízos também são econômicos e, de maneira muito preponderante, psicológicos.

Entre segundas ondas e o retorno do isolamento social de países que aparentavam já estar saindo da situação, tem se tornado mais comum surgir aquilo que a psicologia convencionou chamar de fadiga pandêmica. 

O mal se configura, sobretudo, pelo esgotamento emocional e físico das pessoas confinadas em todo o mundo. É como se sentíssemos que não saímos do lugar desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Conversamos com a psicóloga Maria Verônica Zink, que nos expôs as principais informações acerca do mais recente mal que espreita milhões e talvez bilhões de pessoas em todo o mundo. Confira:

Portal da Cidade Brusque: como podemos definir a fadiga pandêmica e como ela se manifesta no corpo e no sentimento dos pacientes?

Maria Verônica Zink: a definição da “fadiga pandêmica” é recente, pois ela também acaba por ser uma consequência que surgiu agora com a explosão da covid-19. É possível dizer que a fadiga pandêmica vem por conta de todo o estresse causado com a situação atual que se prolonga há certo tempo. De modo geral, ela se manifesta como uma exaustão, um cansaço extremo. Apesar de poder ser diferente disso, as pessoas poderão apresentar dor de cabeça, cansaço, dificuldade de concentração, problemas para dormir, impaciência, sensação de fraqueza, entre outros.

Não existe um consenso geral por ser algo novo e ainda precisar de estudos e análises sobre os casos que vem aparecendo. Contudo, sabe-se que a fadiga pandêmica muito se aproxima ao zoom fatigue, fadiga do zoom, causado pelo excesso de videoconferências e trabalhos remotos.

Portal: quais são as principais causas da chamada fadiga pandêmica? Ela pode ocasionar ou vem acompanhada de outros males?

MVZ: as principais causas da fadiga pandêmica são os excessos de tarefas que precisam ser realizadas no mesmo local e ao mesmo tempo. Essa atenção parcial deixa o cérebro carregado de informações e obrigações. Por exemplo, antes da pandemia, nós trabalhávamos em locais específicos, estudávamos na escola, socializávamos fora de casa. Em um curto espaço de tempo tudo isso precisou ser feito dentro de casa.

O que vem causando uma exaustão extrema. Imagine crianças e adolescentes que encontravam e socializavam com seus colegas todos os dias, enquanto estudavam, tendo que ficar isolados em casa 24 horas por dia, estudando via computador, sem acesso a pessoas de sua faixa etária, sem um auxílio profissional de perto e com o dobro de exposição a internet. Se compararmos, é mais complicado para eles entenderem essas restrições, superarem as dificuldades e diminuírem hábitos saudáveis como rotinas, exercícios físicos, etc.

Nesse mesmo ponto, temos os pais com trabalhos remotos, cuidando dos afazeres domésticos, auxiliando seus filhos e sendo seus “professores” quando alguma dúvida surge, sem contar nas preocupações financeiras e de saúde, também 24 horas por dia. Famílias inteiras que antes não se viam com tanta frequência precisaram aprender a conviver juntas enquanto adaptam suas rotinas.

Acabamos de encontro com situações antes nunca observadas e que de certa forma tivemos que trabalhar e estudar em ambientes que antes eram para descanso: nossa casa. A separação física dos ambientes e das obrigações são questões importantes para o desligamento das questões emocionais envolvidas.

Com o passar da pandemia, se percebeu um aumento expressivo de consultas relacionadas com esse tema ou com sinais e sintomas por conta dessas mudanças. Pessoas que antes eram mais ansiosas e tiveram uma dificuldade no controle dos seus sentimentos, crianças e adolescentes com atividades atrasadas e procrastinação aumentadas, adultos exaustos que repetem o tempo todo “estou muito cansado”. Fora a piora na socialização, o medo do contágio, o luto diferenciado por pessoas que perderam pacientes da covid-19, aumento no número de casos de suicídio no setembro amarelo.

É quase como se fosse um combo gigantesco de sensações corporais, situações, sentimentos e pensamentos que vem causando uma piora nas questões psicológicas imensuráveis no momento, pois não sabemos como tudo isso irá ficar quando chegar o fim da pandemia ou pelo tempo que ela irá durar.

Portal: como podemos enfrentar este mal contemporâneo?

MVZ: eis uma grande questão. É necessário um acompanhamento de um profissional capacitado, mas pode-se começar a estabelecer rotinas, ambientes físicos e específicos dentro de casa para serem realizadas as atividades. Evitar que as crianças estudem em seu local de descanso, evitar trabalhar na cama, pois é necessário que o cérebro tenha o menor número de informações conflituosas possíveis. Estabelecer horários e pausas de 15 minutos entre uma atividade ou outra, buscar lazer longe de telas, celular, computador, televisão, em ar livre e que proporcione um gasto de energia com todos os cuidados necessários.

Precisamos mesmo nesse tempo pandêmico evitar a propagação de caos, fake news, situações estressoras, pois isso só piora a nossa saúde mental.

Busquem ajuda de profissionais qualificados. Nós estamos aqui para ajudar quem precisa, ninguém nasceu sabendo lidar com isso, então é normal passar por dificuldades.

Portal: é considerável o número de pacientes que estão sofrendo com este mal ou ainda podemos dizer que não é um número preocupante?

Não há um dado estatístico específico sobre isso, mas entre os profissionais da saúde mental considera-se que sim é considerável o aumento de demanda que a fadiga pandêmica ou as suas consequências trouxeram nos últimos meses. Inclusive pacientes que estavam estáveis e em tratamento apresentaram uma piora no quadro por conta do cansaço, da exaustão e todo o estresse gerado.

Portal: algo importante a se mencionar que eu não tenha perguntado?

MVZ: precisamos diminuir a cobrança, as metas exageradas, as atividades desnecessárias. É tempo de cuidar mais, não só em relação ao covid-19 e o contágio, mas também a saúde mental e as consequências que estamos passando nesse momento.

Precisamos ter cuidado para não desmerecer a dificuldade dos que estão ao nosso redor, tem pessoas que conseguem estudar 10 horas, mas outras se sentem cansadas com quatro horas. Cada um tem o seu tempo e as suas próprias consequências, ninguém funciona igual.

Pare um pouco e se pergunte. Quantas vezes você já disse “Eu não aguento mais” ou ouviu algum idoso, adultos, adolescente e criança repetir essa frase, e outras similares, várias e várias vezes. É um sinal de alerta, nunca se esqueça do auto cuidado, ele não é só importante, é necessário.


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