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Eder Aparecido de Carvalho: a história do novo diretor-geral do IFC de Brusque

Professor de Sociologia e agora novo diretor-geral do IFC de Brusque, Eder recordou parte de sua história de vida

Postado em 07/06/2020 às 23:05 |

(Foto: Thiago Facchini/Portal da Cidade Brusque)

Recém eleito ao cargo de diretor-geral do Instituto Federal Catarinense (IFC) de Brusque, o professor de Sociologia, Eder Aparecido de Carvalho, possui uma longa história na bagagem. 

Buscando mostrar um pouco mais a cara do novo diretor-geral do IFC de Brusque, a reportagem do Portal da Cidade realizou, na última terça-feira (2), uma entrevista com Eder, que lembrou a época da juventude no interior de São Paulo e seus antigos trabalhos realizados ao longo da vida antes mesmo de chegar ao Instituto Federal Catarinense.

Ele recordou também alguns momentos difíceis durante sua carreira, como a rebelião nos presídios em 2006, quando foi feito de refém por 49 horas.

Agora, o Portal da Cidade Brusque te conta essa história:

Educação no interior paulista 

Nascido em Votuporanga (SP) e criado em Parisi (SP), Eder estudou na Escola Técnica Estadual Frei Arnaldo Maria de Itaporanga, conhecido também como Colégio Técnico Agrícola (CTA), em regime de internato, ou seja, dormia na escola e retornava para casa nos finais de semana.

Na cidade do interior, além da conclusão do ensino médio, ele se formou, também, no curso Técnico em Agropecuária. “Lá no CTA era parecido como os alunos do IFC fazem hoje. Eu fazia o ensino médio e um curso técnico integrado. Fui agriculino”, conta.

Em 1993, após a conclusão do ensino médio, começou a trabalhar como técnico agrícola no Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus).

Administração penitenciária

A vida pública de Eder Aparecido de Carvalho se inicia oficialmente quando deixa sua profissão de técnico agrícola e faz um concurso público para trabalhar na penitenciária João Batista de Santana, situada no município de Riolândia (SP).

Após sete anos da conclusão do médio técnico e já trabalhando na carceragem, Eder viu a oportunidade de ingressar na faculdade de Serviço Social, pois seus colegas de trabalho já possuíam ou estavam fazendo um curso de graduação e ele não. Com isso, iniciou o curso superior no Centro Universitário de Votuporanga (Unifev). Eder conciliava o trabalho na administração penitenciária com a graduação.


Eder palestrando na Unifev anos depois. Foto: Arquivo pessoal

Rebelião de 2006

A maioria das histórias de vida possui uma grande dificuldade e a de Eder não é diferente. Ele foi feito de refém por 49 horas em uma das maiores rebeliões em presídios que o Brasil já presenciou.

O início da megarrebelião se deu por conta de uma transferência de detentos ligados a uma facção criminosa de São Paulo, ato este que não contentou os presos.

A determinação na época foi do ex-vice-governador de São Paulo, Claudio Lembo (PFL), que havia assumido o Executivo paulista após renúncia do titular, que era Geraldo Alckmin (PSDB), que deixou o cargo para concorrer às eleições presidenciais daquele ano.

A rebelião começou às 10h30 do dia 13 de maio de 2006, próximo ao feriado de Dia das Mães. E junto com mais 11 servidores da penitenciária, Eder foi feito de refém.

Apesar da difícil situação, ele não foi agredido fisicamente - o que não exclui incursão psicológica. Lembrando que durante uma rebelião, conforme o andamento das negociações que acontecem para zelar pela vida dos servidores, os reféns vão sendo liberados aos poucos - ao menos foi assim em 2006. Na ocasião, Eder foi solto apenas no término da rebelião, ou seja, ficou as 49 horas sem poder sair do presídio em uma situação completamente desconfortável.

“No processo vão saindo os reféns. Por exemplo, em uma penitenciária, quando começa uma rebelião, o diretor corta a água e a luz, que, especialmente, faz falta aos presos durante o período noturno. Mas, nesta ocasião, é ‘comum’ o diretor deixar água e luz funcionando à noite, desde que seja feito soltura de alguns reféns. E assim são feitas as negociações”, explica Eder.

Enquanto refém, ia ser solto, mas optou pela troca

Quando alguém está em uma situação que pode custar a própria vida, é normal que a pessoa tentará fazer de tudo para que seja salvo.

Eder teve a oportunidade de ser solto um dia antes do término da rebelião, ainda quando não tinha ideia se sairia do local vivo ou não. Porém, na noite anterior, recluso na cela 224, ele havia conversado com um de seus colegas que também estava de refém, que o contou da preocupação com a filha de sete anos.

Diante do exposto, na hora que estava passando pela porta da cela, a caminho da liberdade, em razão de negociação da direção com detentos, lembrou daquela conversa. Na época Eder ainda não tinha filhos e não era casado, então solicitou que uma troca fosse feita. Ele pediu aos presidiários que liberassem seu colega, que tinha uma filha, em seu lugar. Assim, mesmo correndo risco de vida, retornou ao local onde estava confinado para fazer com que seu amigo pudesse ver a filha.

Emocionado ele recorda da situação e diz que agiu de forma espontânea, sem pensar muito. “Sem dúvidas a minha família estava muito preocupada comigo, mas na época eu não tinha uma filha”, conta.

“Os anos se passaram e hoje eu tenho duas filhas, até me arrepio ao falar isso, pois talvez hoje eu não faria o mesmo. Na época era jovem e namorava apenas, tinha menos compromissos comparado a um arrimo de família. Agora eu tenho a exata imensidão daquilo que fiz pelo meu amigo, pois caso alguém fizesse isso por mim hoje, eu seria muito grato”, afirma.

Lembrou que após ter optado por permanecer no pavilhão, foi lhe dado o uniforme que os presos usavam na carceragem, visto que se houvesse uma invasão dos militares, a polícia não saberia quem eram os reféns.

Mesmo com a decisão que poderia custar sua vida, Eder foi liberado no dia seguinte, às 11h30 do dia 15 de maio de 2006, quando as negociações se deram por encerradas e o comando da facção conseguiu chegar em um acordo com o Estado.

Naquele momento finalmente acabaria a megarrebelião que chocou o País em 2006, onde as facções mediram forças a partir da determinação de transferência de presos, emitida pela equipe do ex-governador Claudio Lembo.


Penitenciária de Riolândia. Foto: Reprodução

Uma oportunidade no IFSP

Ainda trabalhando na penitenciária, Eder fez um curso de mestrado na área de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e começou dar aula em instituições de ensino privado da região.

Em 2012 surgiu a oportunidade de fazer um concurso público para trabalhar como assistente social no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) de Votuporanga, campus que recém havia sido inaugurado em sua cidade natal.

Eder foi o primeiro colocado no concurso que disponibilizava apenas uma vaga. Assim, após 15 anos trabalhando na administração penitenciária, de 1998 até 2013, deixou Riolândia com sentimento de dever cumprido. “Foi muito bom trabalhar como servidor na penitenciária. Eu tinha uma relação profissional muito boa com os colegas de profissão e sempre respeitei os direitos dos presos. Inclusive, depois que parei de trabalhar lá, cheguei a encontrar alguns ex-detentos na rua, já em liberdade. A maioria vinha conversar comigo e falar que estava trabalhando”, lembra.

Eder trabalhou no Instituto Federal de São Paulo pelo período de quatro anos. Com isso observou que vários de seus colegas possuíam o título de doutores. E, com isso, observou uma oportunidade em aumentar ainda mais seu currículo.

Após um processo seletivo, Eder ingressou no doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara (SP).

A defesa do doutorado foi feita em 2019, quando ele já estava morando em Brusque.


Defesa da tese de doutorado de Eder, em 2019. Foto: Arquivo pessoal

De onde vem a Sociologia?

Ainda quando estava trabalhando como assistente social no Instituto Federal de São Paulo, Eder se licenciou em Sociologia e, além de trabalhar no IFSP, continuou a dar aulas em outras escolas privadas da região.

Com o andamento do doutorado e com a formação em Sociologia, Eder fez outro processo de seleção, desta vez para ser professor do instituto. Processo este que obteve um bom resultado e foi transferido para o Instituto Federal Catarinense (IFC) de Brusque, para lecionar na área.


IFSP de Votuporanga, onde Eder trabalhava. Foto: Reprodução

O novo diretor do IFC Brusque

Em setembro de 2019 foi realizado as eleições do IFC. Assim, os técnicos administrativos, professores e estudantes da instituição poderiam votar para escolha do novo reitor, dos novos membros do Conselho Superior (Consuper) e do novo diretor-geral do IFC de Brusque.

Mas a história dele como candidato começa muito antes. Ainda quando estava trabalhando na administração penitenciária ele concorreu ao cargo de vereador em Votuporanga, onde alcançou um bom número de votos para ser o primeiro suplente e, apesar de não ter assumido uma cadeira no Legislativo, Eder leva esta eleição com muito aprendizado.

Ele também chegou a ser candidato a diretor-geral em uma eleição provisória no IFSP de Votuporanga. O mandato seria de apenas um ano e meio, pois a disputa pelo pleito visava apenas unificar as eleições de diretor-geral junto com a eleição para escolha do reitor. Assim, as regras para se candidatar eram mais flexíveis.

As vezes uma derrota pode trazer muitos ensinamentos, Eder foi o segundo colocado naquela eleição, mas aquele processo serviu como experiência para o pleito que aconteceu quatro anos depois no IFC de Brusque.

Dizem que na terceira tentativa sempre dá certo e, no caso de Eder, o ditado provou ser verdadeiro. O até então professor de Sociologia foi eleito com aproximadamente 39% dos votos válidos, superando assim os números de seus concorrentes ao pleito.


Eder no discurso de posse como novo diretor-geral do IFC de Brusque. Foto: Reprodução

Adaptação na cidade

Antes mesmo de ser eleito diretor, na época que recém havia chegado em Brusque, ele teve uma ótima impressão da cidade e que tudo lembra muito seu município natal, Votuporanga, por ser muito semelhante.

“Brusque tem uma coisa que onde eu morava não tinha. Os morros e esse verde. É tudo muito lindo e maravilhoso. Lá no interior de São Paulo não era assim, prevalece os terrenos planos”, afirma.

Além disso, Eder comenta sobre a cultura alemã e do litoral de Santa Catarina, que é próximo de Brusque, e diz, também, que é muito legal ter contato com as pessoas da cidade. “Pra mim é um crescimento e um aprendizado que eu nem imaginava ter”, afirma.

Metas

Mesmo em meio a dificuldade na execução das propostas de campanha por conta da proliferação do coronavírus e da suspensão das aulas presenciais no IFC, Eder comenta que uma das propostas gerais, que cabem ao diretor, tem como objetivo principal divulgar ainda mais o Instituto Federal Catarinense para a comunidade de Brusque e região. Esta meta parte do princípio que, mesmo já há alguns anos na cidade, muitas pessoas ainda não sabem que o IFC possui um ensino médio gratuito acoplado a um curso técnico, além do ensino superior.

Outra meta que Eder, junto com seus colegas, pretende executar, é a questão da diminuição da evasão nos cursos de graduação.

Além disso, uma novidade que recentemente foi divulgado na mídia local é a confirmação que o primeiro curso de mestrado em Brusque será no IFC. Após reuniões na reitoria, Brusque, por meio do Instituto Federal Catarinense, passa a contar a partir do segundo semestre de 2021 com o Mestrado Profissional em Ensino de Geografia (ProfGeo). Por se tratar de um mestrado reconhecido pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) e que será voltado aos profissionais da educação básica, é uma grande conquista para a cidade.

Eder também incentiva a valorização do diálogo com os prefeitos de Brusque e região. Recentemente o diretor-geral se encontrou com o vice-prefeito Ari Vequi para estreitar os laços do IFC com a Prefeitura de Brusque e, também, Eder foi recebido pelo vice-prefeito de Guabiruba, Valmir Zirke, para conversar sobre a instituição e idealizar projetos que possam ser vantajosos tanto para o IFC de Brusque quanto para o município de Guabiruba. Inclusive, projetos que envolvam intercâmbio para outro país.

A ideia ainda é conversar com mais representantes do Poder Executivo das cidades vizinhas, como Nova Trento, São João Batista, Canelinha, Gaspar e Botuverá.

Eder lembra a questão que abarca o orçamento do campus, principalmente em épocas de contingenciamentos de recursos. Inclusive, o mais recente e que afetou o IFC de Brusque, aconteceu no primeiro semestre do ano passado, embora teve a liberação da verba “bloqueada” nos meses finais de 2019. No momento também não está liberado o orçamento integral correspondente a 2020, mas confia que os recursos serão disponibilizados. Por outro lado se mostra preocupado com cenário colocado pela pandemia da covid-19, mas não tem dúvidas quanto ao desenvolvimento e progresso do IFC.


Primeira imagem divulgada para anunciar que Eder foi eleito diretor. Foto: Rádio IFC Web

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