Portal da Cidade Brusque

NOSSO JEITO DE FALAR

O sotaque de Brusque: uma herança viva de 166 anos de história

Doutor em Linguística explica as origens do sotaque, das expressões e das peculiaridades da fala brusquense

Publicado em 03/08/2026 às 20:41

Quem nasce em Brusque talvez nem perceba. Mas basta viajar alguns quilômetros para que a pergunta apareça: “Tu és de Brusque, né?”.

Às vezes é o famoso “s” chiado que entrega a origem. Em outras, são expressões que soam estranhas para quem vem de fora. E há ainda aquele jeito muito próprio de conjugar verbos, com frases como “tu fizesse?”, “tu gostasse?” ou “tu levasse?”, tão comuns no cotidiano brusquense.

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Brusque tem um jeito próprio de falar, de comer, de empreender e de preservar tradições que atravessam gerações. São costumes, histórias e curiosidades que fazem parte da identidade da cidade e que despertam identificação imediata em quem vive aqui.

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Em uma cidade que celebra 166 anos de história, a forma de falar também ajuda a contar quem somos.

Para entender de onde vem esse sotaque tão característico, o Portal da Cidade conversou com o professor e pesquisador Vitor Hochsprung, doutor em Linguística.

Segundo ele, a explicação vai muito além da imigração alemã. “Num primeiro momento, a gente pensa que o sotaque brusquense é fruto da colonização alemã. Essa resposta não está de todo errada, mas ela está um pouquinho incompleta”, explica.

Isso porque os imigrantes que chegaram à região não formavam um grupo homogêneo. Vieram pessoas de diferentes regiões da Alemanha, além de italianos, poloneses e outros povos que passaram a conviver no mesmo território.

“O que a gente tem aqui é resultado de muito contato linguístico. Vieram colonizadores do sul da Alemanha e da região da Prússia, mas também italianos e poloneses. Tudo isso contribuiu para os sotaques que temos hoje”, afirma.

Além disso, Hochsprung lembra que a história local não começou com a imigração europeia.

“A gente não pode esquecer que já havia pessoas aqui. Então tudo isso vem de contato linguístico. Depois vieram a urbanização, a expansão da cidade, a mídia, a globalização. Tudo isso influencia a maneira como falamos.”

O famoso “s” de Brusque
Se existe uma característica que costuma denunciar um brusquense fora da cidade, ela provavelmente está no “s”.

É o som que faz muita gente brincar dizendo que o nome da cidade é pronunciado como “Bruxque”.

Palavras como “escola”, “linguística” e a própria “Brusque” carregam esse chiado tão marcante.

“Para mim, o que mais denuncia que sou brusquense quando estou fora daqui é justamente o ‘s’ chiado no fim das sílabas”, conta o pesquisador.

Segundo ele, esse traço aproxima Brusque de cidades como Florianópolis e Itajaí, onde o chiado também é bastante presente. A diferença está na origem histórica.

“Em Florianópolis e em outras cidades do litoral, esse som está muito ligado à influência açoriana. Já em Brusque, ele está relacionado a outros processos de contato linguístico, principalmente com os grupos de origem alemã e italiana.”

Com o passar das gerações, no entanto, esse som também foi mudando.

“O ‘s’ que falamos hoje provavelmente já não é exatamente o mesmo da época da colonização.”

O “tu fizesse” não é erro
Outra característica marcante do português falado em Brusque aparece nas conjugações verbais.

Enquanto a gramática normativa indicaria formas como “tu fizeste” ou “tu gostaste”, no dia a dia é comum ouvir:

“Tu fizesse?” “Tu gostasse?” “Tu levasse?” “Tu visse?”

O fenômeno não é exclusivo de Brusque, mas é especialmente forte na região.

“Muitas vezes, em vez de falar ‘tu fez’ ou ‘tu fizeste’, a gente utiliza ‘tu fizesse’. Isso é típico em muitos lugares de Santa Catarina, mas em Brusque é bem marcado”, explica Hochsprung.

E ele faz questão de desfazer um equívoco comum.

“Pela perspectiva da linguística, isso não é erro. É uma variação linguística. Assim como outros lugares têm suas características, o português brusquense também tem as suas.”

Para o pesquisador, a função da linguística não é julgar formas de falar, mas compreendê-las.

“Se uma forma existe na língua e é utilizada pelas pessoas, ela é passível de análise. A gente tenta entender de onde ela vem e como funciona.”

O brusquense também fala “tais”
Outra marca bastante presente na fala local é o uso da palavra “tais”.

“Táis?” pode significar simplesmente “estás?”, mas aparece em inúmeras situações do cotidiano.

Já a expressão “tais fora” talvez seja uma das mais conhecidas do vocabulário brusquense.

Dependendo do contexto, pode significar:

“Nem pensar.” “De jeito nenhum.” “Tu estás louco?” Uma reação de surpresa ou indignação.

É uma expressão que resume bem o jeito espontâneo e bem-humorado do falar local.

“Vou pra cidade”
Quem cresceu em Brusque provavelmente já ouviu alguém dizer: “Vou pra cidade.” Mesmo morando dentro da cidade.

A expressão tradicionalmente significa ir ao Centro, um hábito linguístico herdado de uma época em que os bairros tinham uma relação muito mais distante com a região central.

Outro clássico é o famoso: “Segue reto toda vida.”

Uma indicação geográfica que talvez não apareça em nenhum manual de orientação urbana, mas que qualquer brusquense entende perfeitamente.

Entre os mais antigos, ainda é comum ouvir expressões como: “Se pisou.”

Que, curiosamente, não significa colocar o pé em algum lugar, mas sim se machucar ou sofrer uma pequena lesão.

O sotaque que conta uma história
Ao longo dos seus 166 anos, Brusque recebeu diferentes povos, culturas e influências. Tudo isso ficou registrado não apenas na arquitetura, na gastronomia ou nas tradições, mas também na fala das pessoas.

Por isso, talvez seja impossível apontar uma única característica capaz de definir o sotaque brusquense.

“Eu não sei dizer se existe uma coisa que define completamente o sotaque daqui. Talvez eu precisasse não ser brusquense para enxergar isso”, brinca Hochsprung.

Mas uma certeza permanece.

“Sotaque é uma das marcas da identidade de uma pessoa. É uma das coisas que ajudam a construir quem nós somos.”

E talvez seja justamente por isso que, mesmo quando o brusquense está longe de casa, basta abrir a boca para alguém descobrir de onde ele veio.

Afinal, poucas coisas carregam tanto da história de uma cidade quanto o jeito de falar de quem vive nela. E em Brusque, entre um “fizesse”, um “tais fora” e um “segue reto toda vida”, há 166 anos de história sendo contados todos os dias.

Fonte: Portal da Cidade Brusque

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